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Cesar Cielo aponta para a placa, na piscina do Pinheiros, que traz o registro histórico do seu recorde mundial nos 50 m livre: 20s51

De volta ao Pinheiros em 2017

Cesar Cielo decidiu que voltaria às piscinas para mais uma temporada, em 2017, depois de uma interrupção de 11 meses para descansar e decidir o futuro. O clube escolhido foi o Pinheiros, numa volta para casa.  O campeão olímpico e mundial chegou ao Pinheiros aos 15 anos, quando ainda não tinha os títulos que o consagraram. Passou a treinar numa raia ao lado de Gustavo Borges, um dos principais personagens da natação brasileira, então nos seus últimos anos de carreira competitiva. No retorno ao clube, Cesar Cielo, assim como um dia Gustavo foi para ele, passa a ser o espelho para a nova geração de velocistas brasileiros.

No Pinheiros de 2017 é o filho de Gustavo Borges, Luiz Gustavo Borges, que treina na raia ao lado da de Cesar Cielo, numa inversão de papéis – agora é ele, o único campeão olímpico da natação brasileira, o mentor da futura geração de nadadores, incluindo o filho de quem teve essa atuação quando  estava apenas começando.

“Estou tentando ajudar mais os caras da equipe. Falei para o Albertinho (o técnico Alberto Silva) que meu objetivo é que o Gabriel (Silva Santos) e o Spajari (Pedro Henrique Silva), companheiros de treinos, sejam os grandes velocistas do Brasil no futuro. ‘Vou ajudar vocês agora para em 2020 vocês tomarem as rédeas da coisa aí e serem os caras do Brasil’. Essa geração é mais humilde, mais pé no chão e acho que o caminho para a natação é bacana. Estou feliz de fazer parte dessa transição”, declarou Cielo, após a sua primeira competição pelo Pinheiros, o Torneio Regional, em março de 2017.

Cielo explicou sua volta a um clube que conhecia “como a palma da mão” – competiu pelo Pinheiros entre 2003 e 2009 (e entre 2006 e 2009 treinou com Albertinho, quando estava no Brasil, e com o australiano Brett Hawke, quando estava nos Estados Unidos). “Não queria começar uma coisa do zero em um lugar que não conheço. Sou sócio, conheço as pessoas, caiu como uma luva. Voltei com uma proposta diferente para o Pinheiros e quando conversei com o Albertinho era isso mesmo que eles queriam para mim.”

Parceria retomada com o técnico Albertinho, no Pinheiros

Cesar Cielo, espelho para a nova geração de velocistas brasileiros

Barbarense, Piracicaba, Pinheiros, EUA, Flamengo, Minas, um caminho de vitórias

Mas a carreira vitoriosa de Cesar Cielo tem vários clubes e treinadores pelo caminho. Sua primeira competição foi aos 8 anos, pelo Barbarense, clube de Santa Bárbara D’Oeste, a cidade natal. Mas o contato com a natação começou bem antes, nas brincadeiras com os amiguinhos na piscina, enquanto a mãe, Flávia, formada em Educação Física, dava aulas para crianças um pouco mais velhas. Cesar Cielo nadou no Barbarense, sob o comando do técnico Mário Francisco Sobrinho. Ainda nadou pelo Clube de Campo de Piracicaba, orientado por Reinaldo Rosa.

Comemorando recorde mundial dos 50 m livre (20s91) no Torneio Open

Comemorando recorde mundial dos 50 m livre (20s91) no Torneio Open

Aos 15 anos, foi apresentando pela mãe a Alberto Silva, o Albertinho, que treinava Gustavo Borges no Pinheiros, depois de um curso que Flávia fez com o técnico, em Campinas. Surgiu o convite para nadar no Pinheiros. “Tive medo de mandar meu filho, de apenas 15 anos, para São Paulo. Mas o Albertinho ligou e disse: ‘E se for para treinar com o Gustavo?’. Falei para o Cesão (como os familiares chamam o nadador): ‘Aí não tem jeito, temos de aceitar’.”

Cielo tomou o rumo de São Paulo e, depois, seguiu para a Universidade de Auburn, nos Estados Unidos, para estudar e treinar. Por três anos, alternou o trabalho no Pinheiros com o de Auburn, onde treinava sob o comando de Brett Hawke. Defendeu o Pinheiros até 2009, ano em que bateu o recorde mundial dos 50 m livre (20s91) no Torneio Open, na piscina do clube.

O início de 2010 trouxe mudanças para Cielo e a natação mundial. A Fina proibiu o uso dos maiôs do tipo macacão, argumentando que ajudavam os nadadores a flutuar e deslizar. Na temporada das bermudas, Cielo mudou de clube. Começou o ano recebendo propostas de várias equipes do Brasil e do exterior. Assinou com o Flamengo, com o propósito também de contribuir para o fortalecimento da natação no Rio de Janeiro.

Pódio dos 50 m livre no Maria Lenk de 2011

Pódio dos 50 m livre no Maria Lenk de 2011

Cielo ainda representou o Flamengo em 2011 e 2012, mas permaneceu treinando em São Paulo, na piscina do Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP), dentro do Projeto Rumo ao Ouro em 2016, o PRO 16, gerenciado pelo Instituto Cesar Cielo. O PRO 16, ideia trazida para o Brasil por Cielo, reuniu nadadores de elite, de vários clubes do País por dois anos.

No fim de 2012, o Flamengo optou por não manter uma equipe de elite na natação e, em 2013, Cesar Cielo voltou a defender o Clube de Campo de Piracicaba nas competições nacionais. Os treinos se alternaram entre a piscina do Centro Olímpico e a do Paineiras, também em São Paulo, agora sob a orientação do técnico norte-americano Scott Goodrich. Com o treinador, Cielo chegou ao tricampeonato mundial dos 50 m livre e ao bicampeonato dos 50 m borboleta em Barcelona/2013, nove meses depois de superar a cirurgia nos joelhos.

Depois do Mundial, Cesar Cielo começou a sentir a necessidade de contar com a estrutura de um clube grande, de se integrar a uma equipe forte, capaz de motivá-lo a ser sempre mais veloz, e ainda oferecer uma equipe técnica experiente – o técnico Scott Goodrich assumiu o Mesa Aquatics Club, uma das principais equipes de natação dos Estados Unidos. O clube escolhido por Cesar Cielo foi o Minas Tênis, casa da Fiat/Minas, um dos grupos mais fortes da natação brasileira.

Cesar Cielo, ídolo da garotada do Minas

Cesar Cielo fez uma temporada muito boa pelo Minas Tênis Clube em 2014, com três grandes competições. Nadou o Troféu Maria Lenk, em abril, terminando com seis medalhas,quatro de ouro (50 m livre, 50 m borboleta,100 m livre e no revezamento 4×50 m livre), uma de prata (4×100 m livre) e uma de bronze (4×100 m medley). Por sua incrível performance nos 50 m livre – ouro com o melhor tempo do mundo no ano: 21s39 – ficou com o índice técnico masculino do Troféu Maria Lenk.

No Finkel, em setembro, em piscina curta (25 m), levou seis medalhas no total e o Minas Tênis foi campeão. Ganhou ouro nos 50 m livre (20s72) – com o melhor tempo do mundo no ano nas eliminatórias (20s68) – , ouro nos 100 m livre e prata nos 50 m borboleta (22s46). Com a Fiat/Minas levou ouro nos revezamentos 4×50 m livre e no 4×100 m livre e mais a prata no 4×100 m medley.

O velocista deixou o Troféu Daltely Guimarães – Campeonato Brasileiro Sênior e o Open de Natação, duas competições realizadas ao mesmo tempo, na piscina do Botafogo, no Rio, com três índices para o Mundial de Kazã (RUS), em 2015. Cielo fez o índice, com medalha de ouro para a Fiat/Minas, nos 50 m borboleta, no Open de Natação, com o tempo de 22s91, recorde do campeonato e segundo melhor tempo do mundo. Os outros dois índices foram obtidos nos revezamentos que abriu para o Minas Tênis Clube: nos 100 m livre (48s58) e nos 50 m livre (21s60). Cielo ainda integrou o 4×100 m medley da Fiat/Minas, que ficou com a medalha de prata (com Henrique Martins, Felipe Lima e Marcos Macedo).  Cielo ainda competiu pelo Minas Tênis em 2015 e 2016.

Fez uma pausa na carreira após o Troféu Maria Lenk de 2016 e retornou ao Pinheiros em 2017 para ser o espelho da nova geração de velocistas. Foi no Pinheiros, quando ainda tinha 15 anos que nadou ao lado de um dos seus ídolos de então. Os velocistas do Brasil eram Gustavo Borges e Fernando Scherer, o Xuxa, nadadores que Cielo admirava.

O ídolo Gustavo Borges

E essa história da passagem de Cesar Cielo pelos principais clubes do Brasil volta ao começo. Em 2003, Cielo transferiu-se para São Paulo. Por mais de dois anos, foi um dos poucos nadadores do País que tiveram o privilégio de treinar ao lado de Gustavo Borges, que havia passado a maior parte da carreira nos Estados Unidos. Ficou bem conhecida a história do incentivo dado por Gustavo, medalhista olímpico (prata nos 100 m livre em Barcelona/1992; prata nos 200 m livre e bronze nos 100 m livre em Atlanta/1996; bronze com o revezamento 4×100 m em Sydney/2000), que presenteou Cielo com o traje que usou na Olimpíada de Atenas/2004, em sua despedida da seleção brasileira. A calça fast skin (pele de tubarão), autografada pelo ídolo, foi emoldurada e ganhou espaço numa das paredes da casa de Cesar Cielo.

Em 2004, Cesar Cielo foi ao Mundial de Indianápolis em Piscina Curta (de 25 metros), mesmo sem índice. Era uma aposta da natação brasileira, uma aposta que deu certo.

Hoje, tem 17 medalhas conquistadas em Mundiais (Indianápolis/2004, Roma/2009, Dubai/2010, Xangai/2011, Barcelona/2013 e Budapeste/2017), incluindo o tricampeonato nos 50 m livre, o bicampeonato nos 50 m borboleta e a prata no revezamento 4×100 m livre com o time brasileiro; três medalhas olímpicas (ouro, em Pequim/2008, nos 50 m livre, e bronze em Pequim/2008, nos 100 m livre, e em Londres/2012, nos 50 m livre). Ainda soma oito medalhas em Pan-Americanos (Rio/2007 e Guadalajara/2011), sete delas de ouro. É o recordista mundial (20s91) e olímpico (21s30) dos 50 m livre e o recordista mundial dos 100 m livre (46s91).

A honra de receber a medalha do ídolo Gustavo Borges no Open de Natação de 2009

A honra de receber a medalha de Gustavo Borges no Open de Natação de 2009

 

Nos EUA, a convivência com feras do esporte

A velocidade e a técnica primorosa valeram a Cielo uma bolsa de estudos para a Universidade de Auburn, Alabama, nos Estados Unidos. Nas piscinas, defendeu a forte equipe de natação da Universidade, então pentacampeã norte-americana. Para os estudos, escolheu Comércio Exterior, com especialização em espanhol.

Com o australiano Brett Hawke, técnico da Universidade de Auburn

Com o australiano Brett Hawke, seu técnico nos EUA e da Universidade de Auburn

O brasileiro chegou a Auburn no inverno de 2006, aos 19 anos, quando o técnico chefe da equipe de natação era David Marsh, dez vezes o Técnico do Ano da NCAA e treinador da equipe dos EUA em duas Olimpíadas. Marsh assumiu o comando da seleção olímpica norte-americana e o australiano Brett Hawke, ex-nadador com experiência de duas Olimpíadas, passou a orientar os velocistas da Universidade.

Foi Brett Hawke, então com 32 anos, quem fez a preparação de Cielo para a Olimpíada de Pequim. Respondendo aos constantes desafios impostos por Hawke, Cielo chegou ao ouro olímpico.

Nos primeiros anos de faculdade – e com o foco voltado para um bom desempenho em Pequim –, Cielo assinou um contrato de bolsa de estudos que proibia os alunos-atletas de quase tudo, inclusive de ter namoradas ou sair à noite. “No começo, eu pensei: ‘Nossa, que exagero!’. Mas depois vi que não dava mesmo para fazer nada disso treinando para uma Olimpíada.” Cielo se adaptou à pacata Auburn, sem trânsito ou vida noturna agitada – a cidade, de jeito interiorano, não oferecia muito o que fazer além de nadar.

Nos Estados Unidos, Cielo representou a Universidade de Auburn nas disputas da NCAA (National Collegiate Athletic Association ou Associação Atlética Universitária Nacional), incluindo o forte campeonato universitário norte-americano, em que ganhou dez títulos, além das conferências regionais e dos Dual Meets, torneios entre duas universidades.

As competições da NCAA contam com atletas de nível internacional e Cielo pôde se habituar às disputas ao lado de feras do esporte. “Eu olhava de um lado e via o Michael Phelps. Olhava de outro e via o Ian Crocker. O nível é incrível e a quantidade de competições também.”

No primeiro semestre de 2008, ainda com seus feitos na NCAA pelas piscinas americanas, Cielo anunciou que deixaria de competir no circuito universitário para se tornar profissional.