Cesar Cielo ganha ouro inédito e se emociona em Xangai

O nadador brasileiro leva seu terceiro título e a sua oitava medalha em Mundiais, uma que ainda não tinha, nos 50 m borboleta
São Paulo – O nadador Cesar Cielo vibrou muito – gritou e chorou -, ainda na piscina do Centro Oriental de Esportes, em Xangai, assim que bateu em primeiro para ficar com a medalha de ouro nos 50 metros borboleta, nesta segunda-feira, segundo dia de competições no Mundial de Desportos Aquáticos, na China. Numa prova equilibrada, em que mediu forças com os australianos, Cielo levou o ouro com 23s10. Os dois nadadores da Austrália bateram em seguida. Matthew Targett levou a medalha de prata, com 23s28, e Geoff Huegill a de bronze, com 23s35. Na cerimônia de premiação, ocupando o lugar mais alto do pódio, Cielo fez o sinal da cruz, olhou os detalhes de sua medalha e mostrou grande emoção ao ouvir o Hino Nacional e ver a bandeira brasileira ser hasteada. Cielo disse que essa medalha teve “uma sensação diferente” e que era a hora de descontar tudo. “Foi a medalha mais dura da minha vida. Eu imaginei essa cena várias vezes, mas chega na hora você não sabe o que vai fazer. “Esse ouro, definitivamente, tem um gosto diferente dos outros. Foi, provavelmente, a medalha mais difícil que eu conquistei na minha vida. Eu sabia que ia competir contra os melhores do mundo e ser capaz de competir depois do que eu passei nesse mês é uma benção. Com o que aconteceu foi uma hora para testar o quanto eu podia aguentar e seria capaz de me levantar de novo. Eu estou realmente orgulhoso de mim por ter feito isso.” Cesar Cielo nadou na raia 4, ao lado do australiano Geoff Huegill, na 5, e do francês Florent Manaudou, na 3. O brasileiro vinha credenciado pelo melhor tempo do mundo, no ano (22s98), feito no Paris Open, em junho, das eliminatórias (23s26) e das semifinais (23s19), em Xangai, feitos no domingo. Cielo fez o seu ritual, com sinal da cruz, dedo para o alto apontando o céu, tapas no corpo e ainda enxugou o bloco de partida. Teve 0s66 como tempo de reação na largada, nadou na frente desde o início, mesmo sem abrir grande vantagem, e até o fim, sem sofrer ameaças dos adversários. Cesar Cielo, de 24 anos, tinha sete medalhas ganhas em campeonatos mundias de natação, todas elas no estilo livre. No Mundial de Dubai/2010, em piscina curta (25 metros), Cielo levou ouro nos 50 m e nos 100 m livre e bronze nos revezamentos 4×100 m livre e 4×100 m medley. Em Roma/2009, em piscina longa, ganhou ouro nos 50 m livre e nos 100 m livre (com recorde mundial). Ainda tinhauma medalha de prata ganha com o revezamento brasileiro 4×100 m livre, no Mundial de Indianápolis, o seu primeiro, em Indianápolis/2004. Força mental e fé Em entrevista para jornalistas brasileiros e estrangeiros, Cielo falou da medalha de ouro e de sua capacidade de superação. “Nem sei de onde vem essa força mental, mas eu estou aqui de pé, estou aqui lutando. Coloquei na minha cabeça que nada ia deixar me abalar. Me abalou um pouquinho, mas eu estou aqui de pé e estou devolvendo a pancada que eu tomei. Um dia de cada vez e superação acima de tudo. Vou lutar com todas as minhas forças até o fim da competição”, garantiu. “Foi um momento de muita oração e de me apegar muito na fé e na minha família e meus amigos que deram força para eu me segurar em pé. Foi um teste não só pra mim, mas para todo mundo que estava comigo para conseguir superar tudo isso, vir aqui e conseguir competir em alto nível é uma satisfação muito grande. Foi um momento em que a natação virou um grupo. Eu precisava mesmo dos meus amigos e família e todo mundo teve uma parcela muito importante para eu conseguir ter o resultado de hoje.” Sobre a emoção – o choro – após a vitória. “Eu imaginei essa cena várias vezes. Mas na hora não dá para saber o que você vai fazer. Senti que foi um alívio muito grande. Foi muito bom ter ganho a prova e deixar toda essa coisa que estava presa sair. Essa prova, depois de tudo isso que aconteceu, foi sem dúvida a mais difícil, era o momento de descontar tudo mesmo. Agora vou olhar para frente, para as outras provas.” Cesar Cielo ainda vai nadar os 100m livre, em programa de provas que começa às 22 horas desta terça-feira (26/7); os 50m livre na noite desta quinta-feira (28/7); e o revezamento 4x100m medley, na noite de sábado (30/7), sempre pelo horário de Brasília. “Em nenhum momento eu deixei de acreditar que fosse nadar nesse mundial. Não parei de nadar, não parei de me alimentar direito. Um dia de cada vez. Consegui tirar o peso maior, que era quebrar esse gelo. Vim para cá para ser campeão mundial, consegui. Agora é focar nas próximas provas, sem pressão.” Com o amigo Targett Cielo disse que conhece o australiano Targett, com quem dividiu o pódio, desde 2005, quando foi estudar em Auburn, no Alabama, EUA. “Ele é um dos meus melhores amigos. A gente criou uma proximidade muito grande pela situação de ser estrangeiro nadando a liga universitária. Até quando o repórter pegou meio pesado (referindo-se a uma pergunta de um francês, na coletiva), ele tentou me defender. Ter o cara do meu lado do pódio foi muito agradável e até mesmo meio predestinado. Eu não imaginava ninguém fazendo o que ele fez aqui na conferência. Fiquei muito contente por ele também, sair na raia 1 e ter conquistado a prata. É bom saber que meus amigos estão fazendo sucesso.” O técnico Alberto Silva, que orienta Cielo no Projeto Rumo ao Ouro em 2016 (P.R.O. 16), a ordem das provas foi muito favorável. “Ter essa primeira prova que não é a sua principal para poder desabafar. Conseguir suportar tudo isso foi mérito dele. Eu não atrapalhei. A força que ele tem me surpreendeu. Eu me surpreendi com a força desse garoto de se manter treinando e puxando todo mundo. Achei que pude ajudar a chegar até aqui. Importante é ver que ele está feliz. Não é ´corujice´, mas acho que o Cesar tem tudo para ser o maior velocista da história da natação. Está trilhando um caminho pra isso”, disse Albertinho. Cesar Cielo é atleta do Flamengo e tem patrocínio de Avanço, Embratel, Arena e Gatorade.